Quarta, 26 de Novembro de 2014
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Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2012-05-07 21:47:29

“Que faz um poeta na guerra?” (A propósito de África Frente e Verso, de Urbano Bettencourt) ** DANIEL DE SÁ

“Que faz um poeta na guerra?”
(A propósito de África Frente e Verso, de Urbano Bettencourt)
Que faz um poeta na guerra?... Vê matar e morrer. E talvez mate ou morra também. Como Pedro, que uma mina matou tão completamente que só lhe enterraram a alma. Mas, se o poeta não morre, pode regressar sem alma. Ou trazê-la tão mudada que não a reconheça como sua. Ou que não se lha reconheça.
“Frente e Verso” não é um livro de poesia de versos apenas. E nem toda a poesia que está nele é feita com palavras. O primeiro poema, o que primeiro se vê, que se sente, que nos surpreende e enrodilha a alma, ou o que dela nos reste, é a capa. Do outro Urbano, o pintor. Um coração em forma de África. Com cores de tristeza. Como o último instante de penumbra antes que a noite a apague. É a frente. Que na guerra significa lugar de combate. Na contra-capa, outro coração em forma de África. Ardendo em sangue a toda a volta. É o verso, que no título quer também dizer poesia.
A nossa imaginação teima em crer que a África é uma terra de sonho. Fica sempre bem na fotografia. Mas vendo-a de perto, sentindo-lhe o hálito quente do entardecer, talvez se perceba que o que nela mais anoitece não é o dia, mas a vida. Se os sons deixassem rasto como certas passadas, África seria um coro quase infinito de prantos. E um dos maiores naipes desse coro teria regência portuguesa. Milhões de escravos. Milhares de mortos em guerras de ocupação mentirosamente ditas de libertação.
Urbano, o poeta, esteve numa destas. Uma das derradeiras desgraças do Império. Trouxe-se a si na bagagem do regresso. Já não foi mau… E trouxe também o amor por aquela terra. E por aquela gente contra a qual o armaram. Amou-lhe a beleza para além do sangue. A felicidade possível para além do horror. E tem-no dito em prosa-quase-poesia ou em poesia-simplesmente. Em “Frente e Verso” estão ambas juntas.
A beleza na poesia é muitas vezes triste. E não há outra neste livro de remorsos alheios. Que quem deveria sentir não sente. Bastariam dois dos seus versos para estar perfeita uma elegia por África. A África que tanto quisemos que a destruímos. Que continuámos a amar desesperadamente depois de termos percebido que já nada valeria a pena. A África dos homens-nada e das mulheres coisas. Mas o remorso só teria sido útil se houvesse precedido o crime.
Essa África mulher, essa África menina, a que está para além dos embondeiros e dos poentes vermelhos, prefiguração do sangue, resumiu-a o Urbano nesses dois versos. Ou disse-a toda inteira. Só isto: “violada pela milésima vez/ e sempre virgem”.

Daniel de Sá
por: Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer

Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada. Titular do Conselho Estadual de Cultura atuando nas Câmaras de Letras e Patrimônio Cultural.  Pertence a Academia Catarinense de Letras, Cadeira 26. Iinvestigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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