Sexta, 1 de Agosto de 2014
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Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2012-05-07 21:47:29

“Que faz um poeta na guerra?” (A propósito de África Frente e Verso, de Urbano Bettencourt) ** DANIEL DE SÁ

“Que faz um poeta na guerra?”
(A propósito de África Frente e Verso, de Urbano Bettencourt)
Que faz um poeta na guerra?... Vê matar e morrer. E talvez mate ou morra também. Como Pedro, que uma mina matou tão completamente que só lhe enterraram a alma. Mas, se o poeta não morre, pode regressar sem alma. Ou trazê-la tão mudada que não a reconheça como sua. Ou que não se lha reconheça.
“Frente e Verso” não é um livro de poesia de versos apenas. E nem toda a poesia que está nele é feita com palavras. O primeiro poema, o que primeiro se vê, que se sente, que nos surpreende e enrodilha a alma, ou o que dela nos reste, é a capa. Do outro Urbano, o pintor. Um coração em forma de África. Com cores de tristeza. Como o último instante de penumbra antes que a noite a apague. É a frente. Que na guerra significa lugar de combate. Na contra-capa, outro coração em forma de África. Ardendo em sangue a toda a volta. É o verso, que no título quer também dizer poesia.
A nossa imaginação teima em crer que a África é uma terra de sonho. Fica sempre bem na fotografia. Mas vendo-a de perto, sentindo-lhe o hálito quente do entardecer, talvez se perceba que o que nela mais anoitece não é o dia, mas a vida. Se os sons deixassem rasto como certas passadas, África seria um coro quase infinito de prantos. E um dos maiores naipes desse coro teria regência portuguesa. Milhões de escravos. Milhares de mortos em guerras de ocupação mentirosamente ditas de libertação.
Urbano, o poeta, esteve numa destas. Uma das derradeiras desgraças do Império. Trouxe-se a si na bagagem do regresso. Já não foi mau… E trouxe também o amor por aquela terra. E por aquela gente contra a qual o armaram. Amou-lhe a beleza para além do sangue. A felicidade possível para além do horror. E tem-no dito em prosa-quase-poesia ou em poesia-simplesmente. Em “Frente e Verso” estão ambas juntas.
A beleza na poesia é muitas vezes triste. E não há outra neste livro de remorsos alheios. Que quem deveria sentir não sente. Bastariam dois dos seus versos para estar perfeita uma elegia por África. A África que tanto quisemos que a destruímos. Que continuámos a amar desesperadamente depois de termos percebido que já nada valeria a pena. A África dos homens-nada e das mulheres coisas. Mas o remorso só teria sido útil se houvesse precedido o crime.
Essa África mulher, essa África menina, a que está para além dos embondeiros e dos poentes vermelhos, prefiguração do sangue, resumiu-a o Urbano nesses dois versos. Ou disse-a toda inteira. Só isto: “violada pela milésima vez/ e sempre virgem”.

Daniel de Sá
por: Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer

Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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